2026

Acrósticos

Anedota

Arquivo o disfarce diário
No mundo que me põe assim
Encaro ao ver necessário
Do que me fez ter fim
Ouço o que não me dizem
Temo ser um pouco mais
Abrigo meu mundo, que ti, faz
março

Outros

Monstro

Me ouso pela fuga
me agrado ao desconforto
Torno-me visceral aos becos
Prego o derretimento viscoso
alitero ao prazer morto
Sinto fome, fito na carne
frege minha sanha

Meu corpo empurra-se inconcesso
Traço da fome as manchas
do suor que apreço
Sacrifico minhas vergonhas
Faço me das vítimas
dos pés às cabeças
fevereiro

Sem título

esconda a ideia ilícita que
deságua aos rios de ternura
incite o ser que viu a si
na translúcida água pura
fevereiro

Sem título

a carne: me amarga.
escolho não ligar, negar que há algo em meu eixo que me encolhe aos dias.
escolho mover as mãos rapidamente ao deslizar meu cérebro por dentro dos arredores.
aos vultos, escolho idem me esconder, por aí, pelas ruas, pelos seus meio verbos.
e deixo de ser. eu.

deixo tocarem a mim sem sentir um fundo de verdade.
deixo, ao mesmo tempo que acontece o presente verso a ser consolado,
e deixo de ser. eu.

escravizo a mente e penso no molhado, meus pés no chão,
descalços, que causam o tremor que me excita.
me corrói, meu sangue, me amarga ao sair, me deixa áspera ao cortar.
me molha, me molhe, me arranque dos olhos e me faça esquecer que eu. sou.

eu escolho, sim, e no fim, escolho não escolher.
escolho não pensar, não fingir que penso e não pensar
em fingir que faço quaisquer coisa mais.
eu penso, penso e penso e penso e chego a razão de tudo ser.
eu sinto prazer aos versos, a cada passo que me desliza sobre
o papel, que às vezes é um visual pixelado.

degrado ao suar e ao erguer meu queixo acima da linha.
me arranha, arranha e arranha e arranha até meu canal,
que desce desabrocha que arde e arde.
espero que algum dia eu seja sentimento algum.
fevereiro

Sem título

O tempo me forma. É um descaso, me dói, me arde, me interrompe. Seu corpo me compromete, me perco nas palavras ao teu rosto. Ele sabe, o que fiz, o que vi. Ele me observa, eu tremo, suo, sinto ferver. Declaro o que meu corpo sente: eu quero. É particular mas, eu poderia fazer isso. Me arrancar, me sentir incompleta. Para que você me visse, nua, incapaz. Se fosse você. Diga, me conforte, me faça tua.

Os dias me acolhem, me ensurdecem, me encaixam. Assim como você me põe, às caixas, aos formatos regulares que in-condizem com o real.
maio


Sem título

Escuta-me.
Está gelado, por dentro, por fora. Minha respiração mal se estende, breve. Direi a ti o que já disse antes, mas a ninguém. Tenho grandes oportunidades de ser melhor, de fazer o pequeno esforço que talvez me traria um pouco do sorrir, um pouco da gratidão do viver. Ocupo os dias como se fosse necessário, e se faz necessário ser. Pouco porém sinto-me ocupada, apenas a mera existência de novo e de novo no cotidiano. O ambiente é desalinhado, mas me conforto nas desavenças. O sentir é calmo, pois já senti o mesmo diversas vezes. De jeito assim, ao mesmo momento, sinto e sinto e sinto e sinto o mesmo, e sinto. Sucinto respirar que me aflige. Deveria tentar a maneira que tanto me falam para melhorar. Não sei ao certo o que é a tristeza como antes, não sei ao certo o que me trás tanto desconforto no viver. Deveria mesmo, tentar a maneira que tanto me falam para ser alguém.
Em dias, sinto falta das conversas, do antigo cotidiano tão mais tão pertinho de mim. Não há, eu sei, eu sei que não há, não precisa me afirmar repetidamente. Eu sinto. Sucinto os dias. Não gosto do que me acontece no atual, não gostei do que me aconteceu previamente. Senti-me feliz aqui, sinto falta do prévio.
Não me contento.
maio


Sem título

Advento do tempo.
Esquece, tudo o que eu disse já não me pertence mais. Meu ser de hoje foi uma escolha discordante ao meu eu atual.
Advento do tempo.
Relembro, é escassa a hora que escolho pensar no não pertencido. Minhas satisfações diminuem.
Advento do tempo.
maio